sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Fui Ferido




FUI FERIDO


Uma alma ferida
Com uma bala perdida
Lamenta e chora
Com as dores que vêm
Surgindo do além
E não vão embora
Assim me encontro
Parece que pronto
Pra chorar agora

Procuro a razão
Deste meu gemido
E não compreendo
Por que fui ferido
Não fui para a guerra
Não me expus lá fora
Não fui um sem terra
Alvo de outrora
Mas fui alvejado
Meu coração chora

Um projétil de dor
Num tiro certeiro
Quem o atirou
Não vi companheiro
Sem ser transpassado
Eu fui baleado
Como um forasteiro

O doutor não entende
Qual é o meu mal
E não compreende
Meu baixo astral
Mais a dor me esguicha
Pra perto do mal
Chamado injustiça
Do meio social

Pois vejo nas ruas
Menino e menina
Quase nu, ou nua
Em cada esquina
Estendendo a mão
Dizendo me dá
Um pedaço de pão
Pra me saciar

Quando pede pão
O tiro é certeiro
Não tenho nas mãos
Me resta o dinheiro
É a opção
Pra tirar o argueiro
Ouço o coração
Batendo ligeiro
Na educação
De um brasileiro
Me dizendo não
Não lhe dá dinheiro

Então digo não
Agora não dá
Não escuto a razão
Daquele me dá
E o meu coração
Começa a sondar
O próximo que passa
Certamente lhe dá
E naquela desgraça
Não quero pensar

Desgraça de quem
De repente pensei
De quem me pediu
Ou de mim que não dei
Pois está escrito
Ao que escutar
Do pobre o grito
E os ouvidos tapar
Também dará gritos
Que não se ouvirá

Nem bem me esquivei
Desse braço erguido
E logo avistei
Um homem caído
No canto da praça
Na mesma desgraça
Como pássaro ferido

Pois cortaram-lhe as asas
Não passa do chão
Não sabe o que é ter casa
Nem mesa, nem pão
Como me doeu
Tamanha maldade
O culpado sou eu
Pois sou sociedade

E o duro é sair
De casa em casa
Até descobrir
Quem assuma a causa
Quem fez a desgraça
Do homem da praça
Cortando-lhe as asas
Viverei neste tédio
Curtindo a dor
Pois não acho remédio
Nem mesmo o doutor
Que me livre da praça
E daquela desgraça
Do não doador.

São Paulo, 25/12/09

É lastimável, a indecisão das pessoas quando se deparam com uma criança ou um adulto nas ruas pedindo às vezes até um pedaço de pão.
Essa situação torna-se cada vez mais complexa em virtude da existência de espertalhões que se infiltram no meio dos necessitados ou até usam crianças para tirarem proveito de certas ocasiões, frustrando assim a expectativa de quem deu uma moeda pensando ser útil para comprar alimento, depois fica sabendo que foi ou será usada para comprar drogas, cigarros, bebidas alcoólicas, etc.
O cidadão de bom senso não se sente bem quando não dá, e não se sente bem, quando sabe que pode estar contribuindo para o uso indiscriminado de drogas, cigarros, bebidas alcoólicas, etc.
Portanto, para esse cidadão, o tiro é certeiro quando alguém lhe pede um pão, pois não sabe quem está diante de si, quer diga sim, quer diga não, sairá ferido desta colisão.
São experiências como essa que impulsionaram o autor a escrever o poema “fui ferido”.

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